terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Não coloque seu cão no lixo


Eu tentei. Por mais de uma vez eu tentei. Mas não consigo gostar de gatos. Já simulei total simpatia pelo bichano, mas por dentro eu pensava: não rola. Eu gosto mesmo é de cachorro. Só tive um cachorro à vida inteira, o Benji. Todas as crianças nascidas na década de 80 tiveram um benji. Maldita sessão da tarde. O meu Benji era o cão mais esperto do mundo. Mas esperto mesmo. Ele ia comigo todos os dias para aula, mas não entrava. Todo Domingo ele seguia nossa família até a igreja, mas também não entrava. O Benji era hippie. Meu cusco era o símbolo da liberdade. Só vinha para casa nos horários das refeições, atravessava a cidade sem coleira, não tomava banho, um desbravador de pátios alheios. Hábitos caninos permitidos em cidades absurdamente pequenas. Mas em uma dessas manhãs estranhas, que sol nasce meio estranho, o programa da Xuxa estava meio estranho e meu achocolatado frio eu senti que algo de errado estava acontecendo. E realmente aconteceu. O Benji havia ido embora e nunca mais voltou. O trabalho de busca foi intenso. Mas a força tarefa da gurizada lá da rua não foi o suficiente para recuperar my dog. Como toda boa criança depois de dias de choro e manha eu esqueci dele. Mas nunca mais quis ter outro cachorrinho. Anos mais tarde veio a verdade. Minha tia faz um mea culpa e confessou que ela deu o benji para o cara da carroça. Conhecido vulgarmente com leiteiro. Que traição, deram o meu cachorro como se ele fosse um objeto qualquer. Até hoje lembro com dor deste fato, sempre fiquei imaginando o que o cara da carroça fez com ele. Será que ele virou sabão? Ou salame? Talvez vendedor ambulante em algum centro urbano? Sei lá, mas nunca perdoei minha tia por isso. Também nunca consegui entender o motivo para dar aquele rico bicho, ele não fazia nada. Nada mesmo. Não latia, não defendia a casa, não avançava em ninguém, mordeu minha mão uma vez, mas nem doeu. O que deixa pasma ainda hoje é ouvir diariamente nas rádios que muitos cidadãos intelectualizados fazem pior que a minha tia. Pegam seus cães e os abandonam nas faixas ou em regiões rurais, bem longe de casa para que nunca mais voltem. Pessoal, animais também sofrem e como sofrem. Antes de adotar um bichinho é preciso ter certeza do bônus e do ônus, não vale descartar depois como se fosse um sapato velho. Cada vez que eu vejo um cachorro sozinho na rua, com aquela cara de fome, ostracismo e melancolia eu sempre penso: não se faz isso nem com gato.